quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

DEDOS CRUS MAPEIAM AS FARTAS SOMBRAS

    ( à Catarina Crystal )
 
dedos crus mapeiam 
as fartas sombras
do que fazemos um no outro 
sob as variações 
dos volumosos astros
 
se há algo ou alguém 
mais inspirado
do que eu e você,
que se apresente 

nas próximas linhas
dançando com os cisnes 

que inventamos
no rasgo do muito antes


( edu planchêz )

O REI DE CABO VERDE


Amilcar Cabral, o Rei,
de Cabo Verde...
da África entranhada
nas corneas da dignidade


Eu o saltimbanco 
Edu Planchêz,
vos saúdo,
irmão de linhas gigantes,
de mapas escritos
com o que corre nas artérias,
nos rios ferventes,
nos aguaceiros,
nas tranças das mulheres
mães de todos 

os destemidos leões
que pensam o todo


( edu planchêz )

ARTE DOS RAIOS


a arte dos raios 
aranhas espichadas
move-se nas labaredas 

do corpo brando do céu

arte das caras 
que nos olham 
por dentro da chuva

da chuva,
quero o gosto das folhas 
e dos peixes,
dos remos, 

a descrição da canoa
que o amou ardendo 

no meio do rio
inventado por tiago de melo
nas páginas 

do livro de escamas

do livro de escamas,
recebo a abóboda 

apinhada de riscos,
cruzes faiscantes aclamadas estrelas,
letras cravejadas 

de pedras que somem

( edu planchêz )

PEQUENO SER

·
eu, oriundo do fundo do tempo,
das tormentas,
das compactas imperfeições


eu, poeta pequeno,
pequeno ser,
grilo, graveto no sopro,
nuvem escura iluminada


não conto os dias nem as noites,
mastigo marte, plutão, sírius...
nas curvas do sentido soberano


a poesia reabre 
em mim a porta que nunca fecha,
o homem que se veste 

para a natureza,
os olhos do pirilampo 

nos olhos meus

e eu não minto,
falo isso para o fundo 

do meu fundo,
para a alma de meus páis,
se você não acredita,
apenas lamento


eu acredito,
no estado búdico da minha
e da tua criança,
então, roda meu rosto de fogo
sobre teu rosto de fogo,
roda tuas saias 

sobre nossa pele
sem saias


( edu planchêz )

DEDOS CRUS


escrevo,
com diego el khouri,
glauco matoso,
tanussi cardoso,
cairo trindade...
escrevo com as secretas irmãs
das cidades submersas

nas latitudes do estranho animal 

eu, você e os mágicos libertos,
eu e a magnífica esquadra
dos que se arriscam,
dos que marcam os metais
do ir além com dedos crus


( edu planchêz )

EXUBERANTE

( à Catarina Crystal )

 
Exuberante casa
tecida nas encostas
da montanha que vejo
nas imagens do que pensas


Exuberante louça
desenhada nos poços
de tua voz


Quando cantas,
moves as arcas de gelo,
os moldes 

onde são feitas as luas
dessa cidade


( edu planchêz )

nasceremos, morreremos


  ( p minha ama Catarina Crystal )


o que ainda não viveu, 
viverá;
o que ainda não pisou, 
pisa, pisará,
mergulha não mergulha no 
escaldante,
se incomoda 

com os simples tremores:
a inesperiência 

comum a todos,
carregada está 

do que faz sofrer,
do que inspira


ao reino 
do que nunca cresce,
do que sempre cresce,
desço e subo com a sonora
cauda do escorpião sagitário...

e eu vou morrer
como tudo 
e todos morrem;
unidos pela morte, 
pelo parto,
pela água 
e pela falta dela,
conto e não conto 
nos dedos
as horas, 
os dias, os anos...
que me restam 
por esse abissal corpo

na poesia,
nas roldanas da música,
na boa exata 
exagerada comida,
no prazer, na sofrência,
nos curtos da eletricidade
gerada e cuspida na cara,
no futuro que já nos alcança,
eu e você nasceremos 
e morreremos

( edu planchêz )

Grãos do sonho

Na construção do templo 
das palavras
o poeta usa a própria saliva
para amarrar no vento
o fio, a seda
que se elevará 

até as profundezas

Tecer o pano, 
as paredes de pano.
o arco apropriado,
a estrutura mistica
do frio céu
repleto de pássaros
que só o poeta interno
de cada um verá


 Na construção da casa,
do mito, 

do rei Homéro de si mesmo,
o homem ungido 

pela febre das cores,
marcha 

com os grãos do sonho

( edu planchêz )

SELO

agora que tantos já se foram
( para alguma outra dimensão )
a principio minha turva visão
os chamaram de mortos...


que nenhuma data seja impressa
no selo desse escrito,
nada de datas, tempo, 

dias e noites,
exclua a matemática, 

não há cola nem cimento
atando meus pés 

aos cativos calendários,
aos trilhos onde deslizam 

o que escorre dos relógios

( edu planchêz )

em construção ( literalmente )



arrebentado, 
esfarelado entre as pilhas 
de louças,
amarrado ao caos 

que gesta estrelas,
sou saco sem fundo, 

montanha de areia
erguida pelos vagalumes
nas margens do rio 

de néctar de amarulas

ia falar de orfeu, de caronte, 
de eurides.
mas tudo isso não passa 

de literatura,
lendas, 

mitos escritos por alguém

( edu planchêz )

sábado, 4 de fevereiro de 2017

EXTREMO

amo ao extremo uma mulher,
no máximo do máximo 

do máximo,
e tenho esse direito magnífico,
sou homem simples,
um rei da vida,
o mais comum dos comuns


pelos atlânticos do olhar
da casa que nos abriga,
nado porque nadas
comigo nessa aventura
da realeza visceral


( edu planchêz )

nos orificios

ezra pound,
diagrama do imperfeito
sob o prisma da pele dos olhos
crescidos nas bases das edificações
do que você não compreende
porque não se esforça para tal


tudo muito simples,
se duvida, permaneça assim


o pão do dragão
encontra-se no cólum 

do que nunca explico,
nos orificios


(edu planchêz)

ZABÉ DA LOCA

Zabé da Loca assoprando
do alto de sua des-idade
a varinha de taboca
filtro da louca música
de todas artesmanhas
de verter água em cachaça,
pardal em tetel,
largatixa em pica


( edu planchêz )

morcegos de metal liquido

alturas
que minha criatura espalha
nas labaredas, 

nos morcegos de metal líquido
projetados 

por minha substancial 
capacidade
de mover simbolos 

sobre a pele 
dos que aqui estão

( edu planchêz )

ÁRVORE DO CARIRI

"O Rei o apresenta à Montanha 
do Oeste",
o Templo dos Ancestrais, 

situa-se ao largo dessa elevação,
bem perto do cume, 

bem longe 
de onde não há mais corações

E onde os corações tocam pífaros,
acostumei a minha arte 

colher colcheias
e semi-breves junto as folhas
da árvore do Cariri


E o onde pensa que não existo,
ergo uma muralha de fogo,
algo que nunca verá 

se continuar me ignorando,
mas mesmo assim sempre andará
sob a sombra de meus olhos,
cascatas do amor eterno


( edu planchêz )

o campo dos girassóis, o roseiral que se perde no horizonte

Uma criança...
eu criança dolorida,
crescendo na pressão do existir,
do ter que mudar sob os holofotes
do que andei construindo


O mundo que está em mim, 
trouxe-me até a essa rua,
a essa modesta casa,
a essa simples cama 

coberta com lençóis
nem limpos nem sujos


"Um homem verdadeiramente sábio,
não se abala 

diante dos oitos ventos"

Algo queimante traféga 
em meu estômago,
e vos digo que não 

se trata de literatura,
figura de linguagem, 

imagem, metáfora...

Mais um encouraçado,
mais uma guerra, batalha, 

desafio:
unido ao mágico, ao criativo, 

ao religioso...
pleno de confiança,
observo a outra margem 

do vasto oceano,
o campo dos girassóis,
o roseiral que se perde 

no horizonte

(edu planchêz)

FAUNOS

o que corre, o que segue,
o que se faz nômade,
sempre esteve em mim,
nos trovões que acredito
desde muito antes 

do atual menino

eu o cigano 
dos rasgos de panos,
das derretidas petalas,
dos assombros 

e das muitas nuvens,
debruçado no penhasco 

do mais que belo.
continuo com os faunos 

soprando as conchas,
os talos da erva musical


( edu planchêz )

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

radiomediúnica


a arte no vento, 

meu corpo é essa arte,
o corpo de minha mulher é arte;
vosso corpo imperioso 

se arremete ao epicentro,
ao vórtice da lâmpada dínamo 

maquinaria da noite

minha poesia arrebenta 
nas margens,
no fundo do império 

da lama coral
origem de todos os seres 

e não seres,
origem e não origem
das canções viscerais 

dos macedônios templos
da eletricidade radiomediúnica


( edu planchêz )

chakubukus meus

meu ombro dói,
a contratura muscular grita,
grita o novo dia,
grita o que está presente,
o invisível muro da minha mente


de chamas ardentes 
também são feitas as noites,
grato sou a esse forjar 

de espada-alma,
aos aliados 

que ora estão em nova xavantina
e nos emirados 

de aparecida de goiania;
chakubukus meus,
parceiros da liberdade


a lei imutável regida 
pelas palavras,
pelos sábios caracteres 

do sutra de lótus,
neles nos fundimos
ao nosso budha interno,
ao espelho de bronze
que nichiren usou
pelos dias do século doze


roda roda da beleza,
do beija-flor, do roxinol,
das cerejeiras do meu japão


meu mestre que nunca dorme,
para o sempre e para o nunca
junto as minhas mãos as tuas,
as mãos de todos que encontro
e que nunca vou encontrar  


( edu planchêz )

BOCARRAS

arranha-chãos, piso neles,
piso na minha sombra,
nas sombras das coisas 

que me pisam,
e no caldo do sorvete 

verte-se o verão
em glaciais flocos 

de creme e chocolate,
tudo em nossas bocarras.
vertentes do nilo 

desse egito que invento
para mover-me 

nas pirâmides do que penso,
do que devoro 

nas extremidades do meu amor

( edu planchêz )

FILHAS (OS) DE PORRA NENHUMA

Apago todas as minhas palavras 
com palavras,
já que não paro de falar,
que a tagarelice se opõe 

ao meu silenciar,
e é entre as palavras, 

que encontro silêncio,
que abro um novo portal,
estou a empurrar a emperrada 

porta da existência
 

The Doors 1967 rasgando 
os nenhum motivos
para manter vivo 

em mim o último passado
de paixões complexas,
Jim Morrison grita, eu grito,
grita Diego El Khouri 

e Alvaro Nassaralla,
grita Tiça Matta, 

grita Catarina Crystal Blues,
grita Rosa Maria Kapila
e todos os outros filhos da argila


Nascidos no barro, na borra,
na mancha alucinada 

William Burroughs,
nascidos e morridos,
em decomposição composição 

cósmica humana

Viemos da fumaça 
da mais deliciosa maconha,
agarrados no rabicho, 

no filete da lâmpada,
ou mesmo das catapultas das paredes
do cérebro metáfora Renato Russo...
 

E o Doors segue solto
pelas flanelas orientais
que nos acaricia
o sexo e os ouvidos


Mas voltando a tagarelice,
e o silêncio estrondo 

ejaculado por ela,
voltando ao pináculo 

da alta floresta do darma
de nada fazer sentados 

nus no muro das herdades

Pelos meandros dos esmiuçados olhos
que nos unem ao porrete, a porra,
ao dramático e arrombante rock 

sem pai nem mãe

E foda-se essa civilização eunuca
gestada pela gosma televisiva;
que todos se dopem 

com essas palavras arrombadas 
filhas de porra nenhuma

( edu planchez )

filhos de refugiados

as aranhas 
sempre nos trouxeram boa sorte,
ouviamos isso dos antigos,
lembro de uma enorme teia 

que sombreava o tanque
onde mamãe tratava... 

de nossas roupas,
nessa teia linda, 

morava algumas aranhas 
amarelas e pretas

nunca mexemos com as aranhas 
que viviam no alto das coisas,
mas as marrons que escorriam pelo chão
eram esmagadas por nossos chinelos
ou devoradas pelas galinhas


a poesia das aranhas 
nunca nos deu arrepios,
hoje vejo minha mulher 

temer um besouro
que o vento jogou 

sobre a nossa cama;
viver com insetos 

e outros viventes
sempre foi algo natural 

para nós filhos de refugiados

( edu planchêz )